A realidade actual observa-se um aumento significativo de
dependentes químicos que apresentam uma situação crónica de seu abuso e da sua dependência e que, depois de terem feito e experimentado as mais diversas terapêuticas (comunidades terapêuticas, unidades de desabituação, etc.), continuam a fazer um percurso ligado às suas dependências e aos seus abusos, observando-se, muitas vezes, uma continuidade nas suas marginalidades, nos desvios sociais, sofrimentos familiares e delinquências. Dizendo por outra palavras, o vai e vem entre o consumo das substâncias, a saída dos mesmos, o regresso aos consumos torna-se a nota dominante e de definição do indivíduo, de sua personalidade e de sua existência holística. A existência acaba por rodar à volta das substâncias. Isto muitas vezes com os clientes a manterem uma integração socio-profissional, social, familiar,etc. O grande desafio que se coloca aos profissionais de saúde neste contexto: o que fazer com estes indivíduos nestas condições e que não têm vindo a responder às respostas existentes na sociedade? E que, importante, continuam em sofrimento e a pedir ajuda!
Estes indivíduos representam um grande desafio ao paradigma dominante actual, que é caracterizado por um modelo profundamente directivo, tanto terapêutico, como clínico-médico como médico-farmacológico, e que têm por detrás, uma vontade/imposição de mudança dos clientes, modelo de características cognitivo-comportamentais. A realidade é que muitas pessoas não respondem a este paradigma e permanecem nos seus consumos.O modelo biomédico clássico não tem tido respostas.
Venho contrapor como alternativa uma exploração do paradigma não-directivo e centrado no cliente abusador de substâncias. É uma abordagem que se tem revelado muito eficaz, satisfatória e compensadora para o cliente e para o terapeuta.
A grande questão que se põe não é: "como posso tratar ou curar ou mudar essa pessoa"(Rogers, 2009, 56), mas sim : "como posso proporcionar uma relação que esta pessoa possa utilizar para o seu crescimento pessoal ?"(ibidem)O principio básico é o de acreditar que se eu proporcionar um determinado tipo de relacionamento, a outra pessoa descobrirá dentro dela a capacidade e as ferramentas necessárias para crescer e para resolver os problemas de sua vida. Assim a mudança e o desenvolveimento pessoal decorrerão. Com a ajuda do terapeuta !
Uma das realidades sentidas pelos nossos clientes é o permanente sentimento de rejeição, hostilidades sofridas, vítimas de julgamentos externos e de incompreensão no quotidiano, sendo acusados de falta de vontade de se tratarem e falta de motivação para deixarem as suas substâncias.
Uma atitude não-directiva é muitas vezes a única "ilha" de sanidade, quando lhes demonstramos que a nossa aceitação é genuína e refere-se à pessoa no seu todo. E que esta aceitação não é nenhuma recompensa para a sobriedade ou qualquer resultado terapêutico.
O objectivo é criarmos ums relação que permita o cliente ir "além das fachadas (Rogers, 2009, 199), ir alem do "devia", ir além "do que os outros esperam", para além de agradar os outros, e ir em direcção de si mesmo, da autonomia, da auto-determinação.
É desta forma que temos vindo a trabalhar, estando satisfeitos com a abordagem e, mais importante, com os resultados com esta população muito específica.